Tive a oportunidade de conferir o documentário For the Love of Spock durante o painel da Comic Con Experience com o diretor Adam Nimoy, filho de Leonard Nimoy, e o produtor David Zappone. Segundo eles, o que a princípio seria um documentário para celebrar os 50 anos de Star Trek e homenagear o personagem Spock, inevitavelmente tornou-se algo maior com o falecimento de Leonard Nimoy em fevereiro de 2015, que até então fazia parte do projeto.

O argumento para a expansão do documentário, que resultou de uma campanha de crowdfunding, faz todo sentido uma vez que é impossível falar sobre um dos personagens mais importantes da cultura pop sem mencionar a vida daquele que o interpretou durante décadas. Com isso, os 111 minutos fazem um tributo digno do legado deixado por Leonard Nimoy.

 

A construção de um ícone através de outro

O que faz de For the Love of Spock impactante é o fato de que não se trata apenas de uma retrospectiva histórica a respeito de ator e personagem. Nele é possível entender um pouco melhor sobre quem foi Nimoy, e como ele contribuiu para fazer de Spock uma figura tão memorável no imaginário popular, mesmo entre quem sequer viu algo relacionado a Star Trek algum dia. Uma das maiores curiosidades é a respeito de suas ideias apresentadas a Gene Roddenbery, criador da série de ficção científica, que vieram a enriquecer o personagem vulcano. A eterna saudação com os dedos separados, por exemplo, foi ideia dele. A inspiração veio de um momento de sua infância, quando aos oito anos viu o gesto judeu de Nesiat Kapayim e aquilo o marcou. Outra grande sacada foi sugerir a técnica dos pontos de pressão que Spock tantas vezes utilizou, capaz de desacordar alguém ao pressionar o pescoço. Mais do que um grande ator ao consagrar Spock com sua frieza lógica, Nimoy possuía uma inteligência única para inserir camadas sem receio de sugeri-las a Roddenbery. Não por acaso foi o único ator que permaneceu do episódio piloto que foi realizado antes da série ir ao ar. Roddenbery tinha plena consciência de que nenhum outro ator poderia substituí-lo.

 

Bem desenvolvido em narrativa e técnica

A narrativa do documentário é dinâmica, com uma montagem que alterna entre depoimentos de colegas de trabalho, familiares e próximos, e também momentos gravados do próprio astro enquanto viveu, desde entrevistas, comerciais realizados e cenas de suas diversas interpretações na televisão e cinema, até seus momentos com fotografia e música. Além de ator e diretor, Nimoy era fotógrafo, escritor, poeta e músico. De fato, um artista polivalente.

Também chama atenção a trilha sonora, que com o resultado bem sucedido da campanha de financiamento coletivo, os realizadores puderam contratar uma orquestra. E o resultado é sublime, com composições que remetem a todo o universo de Star Trek e emocionam o espectador sobretudo em seus momentos dramáticos.

 

Tocante e inspirador                          

A carga dramática, aliás, não falta em For the Love of Spock. Com muita coragem e honestidade, Adam Nimoy retrata os momentos de turbulência na relação com seu pai, entregando os pesares sofridos pelos dois. Além da ausência proporcionada por atuar em uma série de grande escala durante a infância de Adam e Julie, também sua filha, Leonard com o passar do tempo adquiriu alcoolismo e o próprio Adam admite que usava drogas na época em que brigou com o pai. As revelações humanizam a figura de Leonard e são importantes para que a produção não caia no equívoco do endeusamento, como ocorre com outras ao retratar celebridades. O que não quer dizer, entretanto, que Leonard era uma pessoa difícil e distante. Há um claro cuidado em ressaltar o quanto ele se preocupava com a família e era dono de uma personalidade adorável e altruísta. O ator George Takei, que interpretou o Sr. Sulu, companheiro de tripulação de Spock, até menciona o caso em que ele e a atriz Nichelle Nichols (a Tenente Uhura) não foram convidados para a versão animada de Star Trek. Curiosamente, os únicos não brancos do elenco. Como consequência, Nimoy recusou participar caso eles não estivessem no projeto, uma vez que a franquia sempre pregou por questões de igualdade social na narrativa e produção. Por fim, sua influência garantiu a participação dos colegas. O ocorrido apenas enaltece o fato de que além de uma pessoa com valores à frente de seu tempo, ele também compreendia a importância de Star Trek como uma obra revolucionária.

O final é conduzido com bastante emoção e é impossível não sentir o quanto artistas como Leonard Nimoy nos fazem uma imensa falta. For the Love of Spock é um comovente retrato de um homem que com seu trabalho e ideais veio a influenciar milhares de pessas no meio artístico e até científico, e se estabelecer como uma lenda. Comove saber que, próximo de sua morte, o ator já não podia fazer aquilo que mais amava e dava sentido à sua existência: a arte.