Tudo era perfeito no Paraíso, até haver a rebelião comandada por Lúcifer, que gerou uma grande guerra entre os anjos. Um deles recusou-se a tomar um lado na guerra, acreditando que a única coisa pela qual valia a pena lutar era algo que os humanos viriam a chamar de amor. Como consequência, ele foi exilado do Paraíso junto de outros que aderiram à sua causa, sendo amaldiçoados a vagar pela Terra até que o anjo decidisse seu lado. Assim é a introdução ao mundo de Fallen, filme que estreia em 08 de dezembro no Brasil.

 

Proporções épicas que se tornam contidas

O contexto da guerra, infelizmente, fica em segundo plano na adaptação do livro de mesmo nome da autora Lauren Kate, com foco no romance entre um anjo e uma jovem mortal, amaldiçoados a nunca viverem de fato seu grande amor, o que causa a morte da jovem ao longo das encarnações em que eles estão fadados ao reencontro. Não que haja um problema necessariamente na ideia de retratar um romance com algo a mais na trama, mas é evidente durante os 92 minutos de filme que o roteiro falha quando tenta entregar esse algo a mais.

Responsabilizada pela morte de seu namorado, Lucinda Price (Addison Timli) vai para Sword & Cross, um mórbido internato para adolescentes problemáticos. Lá ela conhece o misterioso Daniel Grigori (Jeremy Irvine), quem ela acredita fortemente já ter visto antes. Daniel, entretanto, busca manter-se afastado de Luce, o que a leva ao igualmente enigmático Cam Briel (Harrison Gilbertson). Mas com o tempo a jovem descobre que há uma verdade por trás dela que muitos no internato tentam esconder.

Antes de continuar, devo dizer que optei pela suspensão da descrença (a aceitação de uma premissa como verdadeira em troca do entretenimento) em relação a anjos, criaturas de milênios de idade, agirem como adolescentes e lutarem pelo amor de uma. Não adianta, afinal, julgar uma proposta descompromissada para um público jovem e seleto como se tivesse a missão de promover algo verdadeiramente complexo. O que também não quer dizer que não há valores dignos de nota por trás da história, a própria ideia do amor acima da guerra é muito bem-vinda e capaz de promover uma bela reflexão, mas o problema se encontra na abordagem do romance que se desenvolve em meio a algumas situações que chegam a ser bregas. Os pontos interessantes, como a personalidade socialmente desajustada de Luce, são menos explorados do que deveriam para aumentar o carisma da personagem e a proporcionar mais profundidade a fim de que a esforçada Addison Timli pudesse desenvolver. O diretor Robert Scott Hicks também não parece disposto a arrancar o máximo que seus atores podem entregar, por mais que alguns deles mostrem aptidão, como também é o caso de Lola Kirke, que dá vida à antissocial e agitada Penny, amiga de Luce.

 

Algumas surpresas técnicas

A composição do pano de fundo, por sua vez, é bastante interessante, ainda mais considerando o baixo orçamento do filme. Sword & Cross, uma mansão de arquitetura gótica (movimento artístico que se relaciona ao divino), é ambientada por névoas que contribuem para o ambiente soturno, complementado pela tendência azulada da direção de fotografia. Já a trilha sonora de Mark Isham alterna entre músicas que casam com a atmosfera religiosa e outras que caem para o lado adolescente da obra. Quanto aos efeitos especiais, vale mencionar o curioso conceito sobre as imateriais asas dos anjos, que são simples, mas possuem um grande sentido.

 

Tom interessante, mas afetado

É interessante observar que, apesar do claro público-alvo, Fallen chama atenção com elementos mais pesados em comparação a outros filmes do gênero, capazes de realmente instigar o público, mas que acabam perdendo força em razão da inconstância da narrativa e montagem, que desacelera logo após seus melhores momentos. O clímax, inclusive, é afetado pela inconstância. Pode até haver uma desculpa por causa do orçamento, que impediu algo mais grandioso, mas não é suficiente para o breve e pouco emocionante ápice, que termina com um acontecimento que até causa impacto, mas deixa a inevitável sensação de que algo estava em falta.

Fallen é uma adaptação percorrida por erros e acertos e que pode vir a crescer caso garanta suas continuações. Há boas ideias por trás, mas o bruto precisa ser lapidado se os realizadores quiserem que o sucesso dos livros se estenda para o cinema.