Em seu primeiro ano, Mr. Robot se mostrou uma das mais gratas surpresas da TV, com uma abordagem bem-vinda e necessária de diversos temas atuais. Ainda que não seja tão badalada quanto outras séries consagradas em andamento, a produção conquistou rapidamente uma legião de admiradores, e as recentes indicações (e uma vitória) ao Emmy mostram que isso não foi por acaso.

A segunda temporada, que agora foi toda dirigida pelo criador Sam Esmail, dá continuidade aos eventos do fim de sua antecessora e gira em torno de suas consequências, focando na humanidade dos personagens e seus problemas adquiridos. Mas consegue ela justificar a ansiedade e trazer um conteúdo ainda melhor para sua segunda temporada?

 

Enredo

Engana-se quem pensa que o universo hacker é o mais importante elemento da série, pois esse elemento na verdade é o agora, e a clara inspiração de Clube da Luta comprova. Desde o primeiro ano a ideia é fazer um estudo sobre questões urgentes na sociedade, e é fantástico perceber que por mais que a trama se passe nos Estados Unidos e dê bastante ênfase a isso, é completamente possível identificar-se com tais questões muito bem desenvolvidas ao longo das duas temporadas, mostrando que Esmail é ciente de que os problemas que aponta são de escala mundial.

mr-robot-main

Apesar de ter mencionado que as atividades dos hackers são equivocadamente dadas como o ponto principal, não significa que a abordagem tenha sido omissa. Há por sinal um excelente momento que retrata o submundo da Deep Web, que muitas pessoas ainda sequer sabem do que se trata. A linguagem tecnológica permanece muito presente, e apesar de que em certos momentos alguns termos sejam difíceis para leigos, eles são apresentados em contextos capazes de serem compreendidos, como backdoor .

Sam Esmail desenvolve o suspense com a mesma qualidade que demonstrara anteriormente, e apresenta plot twists de explodir a cabeça, mesmo quando pensamos que não há mais o que possa acontecer. O lema da segunda temporada é “O controle é uma ilusão”, e neste caso se aplica a nós espectadores, quando pensamos que estamos a par de tudo, mas logo percebemos que não é bem assim. O criador também inova a linguagem de sua obra com a cena em realidade virtual disponibilizada na internet e com a concepção do genial sexto episódio (que conta com uma participação especial inesperada e hilária), que em mãos menos capacitadas poderia ter soado ridículo.

A quebra da quarta parede, que nos coloca dentro da história como amigo imaginário de Elliot, está ainda mais ousada e proporciona um instante belíssimo e plasticamente interessante, quando através do simbolismo de uma cadeira vazia o protagonista menciona que estamos ao seu lado, em uma de suas fantasias de um mundo melhor.

 

Elenco

Uma coisa que precisa ser compreendida sobre a segunda temporada é que ela serve como um processo de transição para os personagens. Elliot Alderson, o protagonista vivido pelo novo astro Rami Malek, até tenta fugir dos perigos que sua própria mente proporciona, e suas válvulas de escape, apesar de absurdas, são verossímeis, tendo em vista tudo o que ele passou. O mesmo pode ser dito sobre sua amiga Angela Moss, que passa por inúmeros dilemas capazes de fritar a mente de qualquer pessoa. Em fato, é difícil encontrar alguém que não esteja beirando a insanidade.

mr-robot-insanity

Outra novidade interessante é a introdução da agente do FBI, Dominique DiPierro, interpretada com perfeição pela bela Grace Gummer, que certamente herdou o talento da mãe, Meryl Streep. Grace desenvolve características muito particulares com o olhar e a forma como Dominique conversa carregada de segurança com alguém para logo depois, em um momento só, desmontar-se com suas incertezas. Cada uma de suas camadas é executada com muito cuidado. Portia Doubleday vai por um caminho parecido, mas ao seu próprio modo, e entrega uma Angela que por vezes se encontra irreconhecível. Também digna de atenção é Carly Chaikin, que faz da desbocada Darlene uma figura tão peculiar quanto seu irmão, e é interessante ver as novas nuances apresentadas pela atriz diante das situações difíceis em que Darlene se encontra, seja por sua causa ou não.

E a brilhante interpretação que rendeu o Emmy a Rami Malek está reforçada e é aí que podemos ver o quanto o ator é competente. Elliot está cada vez mais atormentado e sua tentativa frustrada de manter o controle já poderia se fazer visível apenas por suas expressões. Além disso, seu trabalho em voz off como narrador de sua própria história é fantástico. O modo sereno, pausado e também melancólico mostra o quanto ele entende seu personagem. Destaco ainda um momento extraordinário em que ele faz um monólogo diante de seu grupo de oração, que é um de seus escapes da vida que decidiu abandonar.

 

Ambientação

A fotografia mantém a quebra de paradigmas da temporada anterior e aposta em enquadramentos fora do padrão do cinema e TV convencional. Cada quadro é profundamente poético e carregado de significados a serem analisados.

mr-robot-cast

A trilha sonora também retorna com a predominância de sons eletrônicos e elementos clássicos surgem em momentos oportunos. Ainda falando em som, o recurso do silêncio na narrativa também não pode ser esquecido, visto que ele enaltece a carga dramática e o suspense.

Ainda que a finale não seja tão intrigante como é de praxe um último episódio ser, há revelações e novas perguntas suficientemente capazes de aguardarmos com ansiedade a já confirmada terceira temporada. Que ainda há muita história a ser contada, isso é um fato. Basta Sam Esmail continuar a seguir sua linha lógica como vem fazendo muito bem, e teremos uma série digna de entrar para a história.

PS: Assim como na temporada anterior, há uma importante cena pós-créditos, outro detalhe muito curioso que faz desta uma série única na atualidade ao brincar com uma tendência que já vem de alguns anos no cinema.