Com Game of Thrones cada vez mais próxima do fim, Westworld já era dada, antes de seu lançamento, como a provável sucessora do maior fenômeno da TV atual. O projeto da HBO, que é baseado no filme homônimo de 1973, foi concebido por Jonathan Nolan (irmão e parceiro do cineasta Christopher Nolan) e sua esposa Lisa Joy Nolan. Também vale mencionar a produção de J.J. Abrams. Não fosse o suficiente o casamento das mentes criativas com o canal que sempre foi sinônimo de qualidade, a série ainda conta com um fator especial para os brasileiros, que é a presença de Rodrigo Santoro no elenco.

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Concepção carregada de significados

Além de nomes interessantes por trás do desenvolvimento, existe uma grande ideia. O conceito de Westworld é unir dois dos mais consagrados gêneros pelo cinema e literatura, que são o faroeste e a ficção científica. Na trama, em algum momento do futuro um parque foi construído para que seus visitantes possam ter uma experiência no maior estilo Velho Oeste. O lugar é povoado por androides que, de tão realistas, são facilmente confundidos com humanos. Todo dia eles acordam e vivem basicamente a mesma situação para a qual foram programados. O problema começa quando uma atualização sistêmica apresenta falhas comportamentais nos androides, que os levam a lembrar de “vidas” passadas e agir de forma anormal e perigosa.

O estudo da mente e o alto teor filosófico são características marcantes de Nolan e talvez os mais fascinantes elementos que compõem uma verdadeira ficção científica. O gênero sempre foi lembrado por, além de apresentar mundos visualmente interessantes, também nos presentear com ideias que nos levam à reflexão sobre como vivemos hoje em sociedade, e como podemos estar fadados a viver de acordo com nosso comportamento. Westworld, já em sua estreia, promove uma série de pensamentos que remetem a Platão ou à linha do existencialismo. Também é notável a influência de Isaac Asimov, escritor e bioquímico que revolucionou a ficção ao criar as três leis da robótica e outros conceitos de distopia até hoje utilizados.

 

Beleza além do texto

A poesia da narrativa fica ainda mais interessante no meio em que ela está inserida, um faroeste carregado de violência em contraponto às belas cores e paisagens naturais capturadas pela direção de fotografia, que abusa no bom sentido de enquadramentos amplos de encher os olhos. Também é interessante a inversão no conceito das cores quando observamos os bastidores da criação do parque, onde tudo ganha um tom futurista e de certa forma belo, mas mórbido.

A direção de arte certamente merece destaque por conta disso, principalmente pela criação de dois mundos distintos que funcionam tão bem em conjunto. E quanto à trilha sonora, sobra até espaço para brincar com a cultura pop em uma versão orquestrada de “Paint it, Black” dos Stones, em uma cena inusitadamente cômica e muito bem conduzida por Jonathan Nolan, que dirige o primeiro episódio e muito provavelmente se inspirou em grandes cineastas que marcaram o faroeste, como Sergio Leone.

 

Interpretações notáveis

O elenco de Westworld é digno do que se espera da HBO. Evan Rachel Wood apresenta uma atuação difícil e formidável como a androide Dolores, e é notável como ela trabalha as semelhanças e diferenças que sua personagem vive em dias que são supostamente o mesmo, até chegar no ponto crítico da trama (e o final apresenta um detalhe curioso sobre sua personalidade). Louis Herthum, que dá vida ao seu pai, proporciona um belo momento dramático e perturbador devido ao seu mistério. E se for redundante dizer o quanto Anthony Hopkins é um ator incrível, ainda assim deve ser mencionado que sua performance é uma das mais interessantes, apresentando um Dr. Robert Ford enigmático e estranhamente melancólico. A dinamarquesa Sidse Babett Knudsen apresenta um perfil fortíssimo como uma executiva que coloca em questão o ego dos empresários e conflitos corporativos. O maior mistério até agora fica por conta do personagem de Ed Harris, que trabalha com excelência seu caráter indecifrável. Por fim, se Rodrigo Santoro ainda teve pouco tempo em cena, a construção de seu personagem ocorre sutilmente desde o início do episódio, e quando ele finalmente aparece, diz muito bem a que veio, fazendo o fora da lei sem alma (perdão pelo trocadilho) Hector Escaton.

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Com um enredo profundo e inteligente, grandes atuações e a presença de mistérios que fazem jus à participação de J.J. Abrams como produtor, Westworld mostra um intrigante começo e já torna evidentes as razões para ser dada como a próxima grande sensação da TV.

PS: A série é exibida pelo canal pago HBO todo domingo às 23:00, sendo que a estreia ocorreu em 02/10/2016.