Olá leitores do Manual! Meu nome é Victor Coimbra, sou estudante do curso de Rádio e TV, e vou começar uma nova seção aqui no site com críticas sobre séries e filmes. A ideia é dar não só os argumentos de um espectador, mas tentando trazer um pouco da parte técnica também para os amantes de detalhes como eu. E a primeira série escolhida para aparecer por aqui é Narcos, mais um acerto da gigante de Streaming Netflix.

Apesar de qualquer pessoa saber que Pablo Escobar foi morto em uma operação resultada da parceria entre a Colômbia e os Estados Unidos, muitos espectadores não ficaram felizes em saber quando Wagner Moura, intérprete do traficante, revelou que o destino de Escobar seria apresentado na segunda temporada, o que foi reforçado pela própria Netflix nos materiais de divulgação antes do lançamento.

Certo ou errado, o fato é que o “spoiler” apenas reforça a curiosidade em observar os momentos finais de uma das figuras mais marcantes do século XX.

 

Sem rodeios

A principal diferença que a segunda temporada carrega em relação à sua antecessora é o ritmo. Acompanhando cerca de um ano e meio da vida de Escobar, é evidente o caráter de urgência adotado na narrativa, principalmente levando em conta que se trata de seus momentos finais.

O resultado é uma trama sempre frenética e precisa, que dispensa rodeios para criar subtramas desnecessárias apenas para encher episódios. Isso não significa, entretanto, que tudo se limita à caçada.  Há muito mais do que a guerra entre Escobar e os governos que querem colocar um fim às suas ações.

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Porém, tudo é desenvolvido em complemento ao foco da história, ao mesmo tempo em que expande o universo explorado pelos criadores. Um exemplo é a presença constante do cartel de Cali, que anseia pelo fim do império de Medellín.

 

Maior densidade

Outro destaque fica para o maior aprofundamento nos personagens, mais tridimensionais na nova temporada, inclusive capangas de Escobar com seus dramas pessoais (nada piegas, que fique claro). Mas talvez o mais favorecido em relação a isso seja o policial Javier Peña, interpretado pelo brilhante Pedro Pascal (Game of Thrones). O ator ganhou mais espaço para trabalhar seu personagem, e em alguns momentos chega a se destacar mais do que seu parceiro Steve Murphy, vivido por Boyd Holbrook (A Hospedeira) e dado como protagonista da série.

É Wagner Moura, no entanto, quem assume o protagonismo, tomando a série para si. Sua atuação como Pablo Escobar já havia rendido uma justa indicação ao Globo de Ouro pela primeira temporada. Agora, com seu espanhol melhorado, o ator disseca a mente genial e doentia de Pablo mais a fundo, entregando momentos perturbadores dados por sua falta de escrúpulos, mas também momentos dramáticos que o humanizam e quase nos fazem sentir pena ou mesmo torcer por ele. Suas reações, por mais absurdas que às vezes sejam, são extremamente naturais graças ao ator, e o trabalho com o olhar feito por Wagner Moura é fundamental.

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Linguagem técnica surpreendente

O interessante recurso de imagens reais da época é mantido, e serve tanto como recurso narrativo para mostrar uma trama fiel aos fatos (a atual temporada parece se apegar mais a eles, mas ainda há licenças poéticas) quanto para agregar um caráter documental que se estende à estética da direção de fotografia, e influenciando a sensação de realismo das cenas. Inclusive no meio da ação, quando o sangue jorrado de uma cabeça perfurada por balas acaba manchando a tela.

NARCOS S01E03 "The Men of Always"

As cenas de ação, aliás, estão entre os pontos altos da série, abusando de planos cinematográficos aliados a uma montagem eletrizante, tornando as cenas incrivelmente reais e bem coreografadas. A trilha sonora complementa dando seu belo toque final.

 

Plata O Plomo

A ausência de maniqueísmo é um acerto, não só pela abordagem em torno de Escobar, mas também por mostrar que aqueles que querem pegá-lo, por mais que digam que estão fazendo a coisa certa, acabam tomando meios questionáveis para alcançar seus objetivos. Na prática, a expressão “dinheiro ou chumbo” se aplica a muitos. Além disso, tal fator torna a participação dos Estados Unidos menos heroica na história. Inclusive, há momentos, alguns sutis e outros nem tanto, que evidenciam certos oportunismos da participação americana, o que torna, a meu ver, equivocado o julgamento de que a série favorece os americanos na história.

Ao término, o único grande incômodo que fica é a dúvida quanto aos próximos vilões que servem de gancho para a terceira temporada. Já foi argumentado por produtores que Narcos não se trata apenas de Pablo Escobar e que ainda há muito a ser explorado sobre a cocaína e seus traficantes, mas se os chefes do cartel de Cali conseguirão sustentar o posto à altura, ao menos em questão de carisma, é outra história.

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